terça-feira, 25 de agosto de 2009

As Correntes do Pensamento na Inovação do Modelo de Gestão

Inovar no modelo de gestão requer mais do que uma visão moderna de descentralização, empoderamento, implementação de modernos métodos ou ferramentas de gestão, formas diferenciadas de gestão de mudança ou novas formas de realizar as funções gerenciais. Esta requer de uma metodologia estruturada dentro de um novo pensar conhecido como system and design thinking.

Inovação no modelo de gestão é um tema em alta nos últimos 2 anos. Gary Hamel e Julian Birkinshaw fundadores do Managment Innovation Lab (MIL), ambos professores da London Business School, desenvolvem um trabalho sobre o assunto. Porém, ainda não vejo metodologia nem métodos descritivos à vista, somente uma visão de inovação baseado em processos experimentais. Pelo que consegui perceber de ambos autores, apresentam a definição de alguns princípios orientadores e em outros aspectos conselhos para o designer. Também o MIL cria uma base de dados de cases de empresas que enfrentam a competição com novas formas de gestão, ou seja, empresas que desafiam o status quo do Management.

O desafio é grande pelos requisitos necessários e pelo que um modelo de gestão representa no mundo competitivo. Está cheio de questões ideológicas, multidisciplinar por natureza e principalmente um projeto que deverá evoluir dependendo do nosso modelo mental dentro da perspectiva de ver as organizações como modelos mecanicistas, biológicos ou sociais. Na minha visão a inovação nos modelos de gestão deve ser encarada como uma atividade de design, seguindo duas linhas do pensamento sendo conscientes da complexidade: system thinking e design thinking.

O pensamento sistêmico (system thinking) é um bom ponto de partida conceitual e de confronto paradigmático, ao encarar a inovação de um modelo de gestão. O pensamento sistêmico é antes de tudo o exercício de nossa capacidade de síntese e uma forma de pensar diferente de nossa forma básica de vermos o mundo pelo modelo e prática analítica. É muito comum lembrar Einstein, o grande físico que quebrou enormes paradigmas do pensamento teórico da física. Ele dizia que “Sem mudar nossos padrões de pensamento não seremos capazes de solucionar os problemas que criamos com nossos padrões normais.” Dr. Russell Ackoff, o lendário professor de pesquisa operacional e grande contribuídor do pensamento sistêmico na gestão, dizia que normalmente os gestores ou executivos de empresas concordam com Einstein, porém não conseguem entender as suas implicações ou real significado.

Do blog de Chander, extrai partes importantes para entendimentos do tema pensamento sistêmico. Primeiramente, temos sido influenciados desde a renascença na forma como vemos e procuramos entender as coisas ou solucionamos problemas, ou seja, seguimos o pensamento analítico, normalmente seguindo três etapas:
1. Dividir em partes

2. Entender (funções, papeis, comportamento) o que cada parte faz

3. Montar o entendimento das partes para o entendimento do todo

Nossas estruturas de aprendizado, a forma de estudar ou o modus operandi do processo científico tem grande influência do pensamento analítico. Exemplificando, esta é a forma como são estruturados a maioria dos cursos na escola ou universidades. Quando estudamos administração, o fazemos em partes (finanças, contabilidade, marketing, supply chain, etc). A falta de uma disciplina integradora (e visão sistêmica) tem conduzido a manter este pensamento na forma de trabalhar e ver as organizações e até mesmo na forma em que criamos nossos modelos de gestão atualmente.

O pensamento analítico nos ensina o “como”, este nunca nos ensina o “por que”. Este nos dá conhecimento mais não entendimento. O entendimento vem da Síntese que explica o “por que”.

Capra descreve o “Pensamento sistêmico como um framework que se baseia na crença que os elementos (partes e componentes) de um sistema podem ser mais bem entendidos no contexto do relacionamento entre eles e com outros sistemas, antes do que isolados. A única forma para entender completamente o porquê um problema ou elemento ocorre e persiste, é entender a relação entre as partes e o todo.” (Capra, 1997)

Design Thinking

Não se tem certeza quando surge o Design Thinking no mundo corporativo. Este evolui das abordagens do desenvolvimento de novos produtos de fora para dentro, contrário ao pensamento de dentro para fora que era a abordagem comum das engenharias. Depois surge o Innovation by Design, onde o processo do design se destaca no cenário competitivo.

Como definido por Tim Brown (CEO da IDEO) Design Thinking é a metodologia que imbui todo o espectro de atividades de inovação de um etos de concepção centrado no ser humano. O Design Thinking deve ser considerado mais como um sistema de espaços antes do que um série predefinida de eventos ordenados como normalmente os definimos como processos. Os espaços demarcam diferentes classes de atividades relacionadas e que juntas formam o continuum da inovação, dentro de um ambiente caótico para quem o observa de fora ou não o domina. Segundo Waldrop (1999), a complexidade é um fenômeno intermediário entre a ordem e o caos. Temos essencialmente 3 espaços que convivem no caos. Estes são Inspiração que são as circunstancias motivadoras pela inovação (problemas, oportunidades ou ambos), Ideação que descreve o processo de gerar, desenvolver e testar idéias que podem levar à solução e Implementação que é definir o caminho para colocar em prática ou no mercado (Tim Brown, Harvard Business Review, junho de 2008).




O Design Thinking traz uma nova perspectiva no processo de inovação dos modelos de gestão. É uma proposta ampliada e complementar ao pensamento sistêmico. Por ser uma abordagem ampla que favorece o processo criativo e por ser podemos ver de cara que esta pode ajudar na formatação metodológica de como tratar a inovação de modelos de gestão. Seja na criação de instrumentos de gestão integrados e de sistemas de conteúdo complexo de relacionamentos como é o sistema operacional de uma empresa. O objetivo de um modelo de gestão é criar e alcançar capacidade de execução de estratégias e excelência operacional que permita alcançar as sinergias de todos os demais elementos do negócio. Por isso um modelo de negócio dependerá em grande parte de um modelo de gestão compatível. Por isso é necessário estar alerta com os objetivos de inovar no modelo de gestão.

Design and System Thinking

O falecido pensador e grande professor do Management, Sumantra Ghoshal ensinou que além do velho modelo dos 3Ss (Strategy, Structure e Systems) deve ser acrescentado os 3Ps (Propósitos, Processos e Pessoas) na busca da melhoria da gestão. A proposta de Goshal nos leva ao modelo estrela descrita abaixo. Uma organização não pode ser considerada a agregação de funções e tarefas. Esta deve ser um sistema integrado. Os gestores de uma organização recebem a responsabilidade de desenhar o futuro desejável para a organização, e orquestrar interações e alinhar o poder dos propósitos dos indivíduos para criar este futuro (Lee, Shiba e Wood, Integrated Managment System, 1999).




O sistema de gestão na sua forma básica é composto pelos elementos dos 3Ss e 3Ps. Estes interagem multidimensionalmente criando uma lógica dentro do pensamento sistêmico que auxilia no entendimento e na forma de tratar o tema modelo de gestão. Esta perspectiva ajuda também o designer de modelos de gestão a ampliar a sua visão periférica dos componentes e funções de um modelo de gestão, tendo um efeito positivo no modelo mental do designer. Para quem entende os princípios e os conceitos por traz do pensamento sistêmico e das implicações da complexidade na gestão poderá identificar com maior facilidade os instrumentos (disciplinas, métodos, ferramentas) e suas interfaces que garantem integração, tornando viável o cumprimento das funções básicas de um modelo de gestão (planejamento, operações e gestão de mudança) integrado.


Por outro lado e não menos importante é o entendimento do que é um modelo no mundo da ciência da gestão. Esta compreensão ajuda também no trabalho do designer. Michael Pidd define que "um modelo é uma representação externa e explícita de parte da realidade vista pela pessoa que deseja usar aquele modelo para entender, mudar, gerenciar e controlar parte daquela realidade". O conceito descreve que um modelo é um instrumento utilizado pelo designer para representar a realidade, neste caso é um instrumento para projetar um sistema de gestão. O processo de modelagem tem muita utilidade na administração científica. Por isso vejo uma grande oportunidade de pesquisa e desenvolvimento na criação de instrumentos de modelagem.

A inovação do modelo de gestão requer um nível de abstração para poder identificar pontos de melhoria no desempenho de forma criativa de configurar o modelo de gestão com o foco de alcançar capacidade competitiva. O Design Thinking nos trás novas formas de ver o todo. Gosto do gráfico de David Teece que criou um framework para identificar o grau de sustentabilidade de um modelo de negócio. No framework abaixo as duas dimensões que criam capacidade de criar e capturar valor consistentemente são Inimitabilidade e o outro são os Ativos Complementares. O modelo de gestão participa na configuração dos ativos complementares e sua viabilidade e exeqüibilidade. Estes ativos são os recursos fora os aspectos de invenção de produtos ou de seus componentes. Estes possibilitam que os recursos e atividades sejam coordenados e executados magistralmente. É aqui onde entra a necessidade de inovar no modelo de gestão. A idéia por traz da inovação no modelo de gestão é identificar ou criar instrumentos gerenciais que se encaixem com os outros dando possibilidade a criar um conjunto competência de Ativos Complementares que criam sustentabilidade e asseguram inimitabilidade.